Um pouco de mim

(Trecho do livro que está sendo editado sobre a síndrome Miller Fisher) 

Caçula de uma família com outros dois filhos, Delman, o mais velho, e Daniel, o do meio, nos mudamos de Goiás para Minas Gerais, especificamente de Goiânia para Uberaba, minha cidade natal, no início dos anos 80, quando eu tinha apenas três anos. Nós três, juntamente com nossos pais Vicente, um bom marceneiro, e a pragmática professora Valda, formávamos uma família humilde, mas feliz. A chegada à Uberaba não foi um mar de rosas, como era de se esperar, pois qualquer mudança exige imenso sacrifício e essa não foi diferente. Por se tratar de uma família constituída por pais jovens e filhos muito novos, com idades de três, cinco e sete anos, sem nenhum planejamento financeiro, a adaptação se tornou ainda mais delicada. Aqui, depois de alguns dias, nos acomodamos num bairro que naquela época era bem distante, num simpático conjunto de casas populares, localizado depois do único cemitério do município, próximo de algumas rodovias. Hoje, considerando a expansão de Uberaba, esse bairro pode se dizer bem localizado, mas naquele momento não era bem assim.


Vale lembrar, que de lá para cá, inúmeras outras coisas mudaram, por exemplo, nos meados dos anos 80 era raro que as famílias de classe média baixa, exatamente o nosso caso, possuíssem um carro. Naquele tempo, nós nos arranjávamos com uma velha lambreta, o meu pai era o piloto, minha mãe ia logo atrás dele, eu, o menor da turma, ficava de pé na carenagem dianteira, próximo do guidão e do freio traseiro, já os meus irmãos se acomodavam no estepe, que no veículo em questão, ficava atrás do banco traseiro. Analisando as circunstâncias atuais, o meu pai seria visto como um tremendo irresponsável, porém naquele tempo, com o Brasil em desenvolvimento e sucessivas crises, uma inflação assustadora e uma pobreza extrema, tudo isso era normal, para se ter uma ideia, capacete não só era opcional, como raríssimo de se ver, praticamente um item de colecionador.


Vivíamos felizes, bem, pelo menos eu achava, com uma vizinhança cheia de crianças e um bairro onde as ruas asfaltadas serviam praticamente só para as brincadeiras, não havia tempo ruim. Lá iniciou uma coisa que persiste em mim até hoje: a paixão pela música.Ao lado de nossa residência morava um músico chamado “Zé Paraguaio”, como o próprio nome sugere, era especialista em ritmos latinos. Lá conheci também o Mário Baez e Catito, que coincidentemente faleceu um dia antes de eu entrar no hospital em definitivo, quando ainda estava no pronto atendimento, sem diagnóstico, e por isso, aproveitando o ensejo, ofereço aqui minhas homenagens ao grande violonista que ele foi. Toda vez que eles tocavam eu ficava extasiado, acredito que ali germinou uma semente que me levou mais adiante a outros caminhos.
Ainda sobre a música, meu pai, na ocasião, também “arranhava” um violão. Era por hábito dele, aos fins de semana, tomar cerveja, fumar e tocar músicas da jovem guarda, que naquela altura já não era tão jovem assim. O som que ele fazia era o meu “hit” e ao cantar, sempre gravava tudo em fitas K7. Lembro de passar os dias escutando e chorando, por algum motivo que até hoje não sei. Essa idolatria pelo meu velho, no fim das contas rendeu frutos, porque 30 anos depois formamos a dupla “Gomes & Lapaiva”, com essa parceria entre pai e filho tocamos diversas vezes em bares e festas, até que um dia minha voz foi silenciada, temporariamente, assim eu espero.


Pois bem, deixando a música de lado, depois de alguns anos, nos mudamos para um bairro novo, o Jardim Espírito Santo, local onde se realizava o sonho da casa própria e, por isso, passaria minha infância e adolescência ali. A compra do terreno e a construção acabaram com os recursos da família, portanto, quando mudamos, a casa continuava em obra. Não tinha muros, nem rebocos, as janelas e portas não tinham vidros, as lâmpadas não tinham luminárias e as ruas não tinham asfalto, mas no auge da infância, pelos meus 5 ou 6 anos, ali era só alegria, um mundo novo a ser explorado. Naquela casa foi consolidada nossa família. Crescemos na escola e ao barulho de serras e marteladas, pois, com o passar dos anos, meu pai construiu um galpão no fundo, onde montou uma oficina, que permaneceu até a sua separação, lá pelos meus 18 anos de idade. Por ser no fundo de casa e pelo fato da minha mãe trabalhar fora, sempre estávamos ali, entre serragem, peões e clientes. E, como era hábito, começamos a ajudar nos afazeres muito cedo. Vale ressaltar que naquela cultura, crianças e jovens ajudando nos afazeres era comum, não perfazendo um crime como hoje é configurado no Estatuto da Criança e do Adolescente.
 

Com aquele trabalho aprendemos muito, até que, aos 16 anos, aproximadamente, meu irmão Delman conseguiu para mim um estágio no Jornal da Manhã, principal veículo impresso da cidade. Ele já trabalhava lá e depois de efetivado permanecemos juntos por longa data, até que ele foi aprovado num concurso público e mudou de carreira. Meu outro irmão, Daniel, pouco depois também se tornou funcionário público, ingressando na Polícia Militar. Eu, no entanto, nasci destinado ao empreendedorismo, tanto que pegava os trocados que ganhava dos meus pais e comprava balas, lagartixas de plástico e outras bugigangas para tentar vender na escola. Na marcenaria, já que eu não era provido de muita habilidade, pegava as empreitadas e terceirizava aos irmãos. Aos 17, ainda no Jornal da Manhã, cujo meu expediente era noturno, abri o meu primeiro escritório no Shopping Generoso Lenza, conseguindo vendê-lo um ano depois sem grandes lucros.


A essa altura já havia me contaminado totalmente pela comunicação. Adorava o jornalismo e a publicidade, tendo passado em algumas agências até fundar a empresa que até o momento da minha enfermidade eu presidia, a “Cria Propaganda”. Na agência tive a oportunidade de evoluir grandemente como profissional, já formado em comunicação social, além de fazer amizades e parcerias sólidas.
Dada à reputação ilibada e à satisfação dos clientes, a empresa que começou apenas comigo e com a minha esposa Michele, cresceu e passou a ocupar nossa vida, de forma que jamais esperávamos. Tínhamos uma rotina de trabalho que chegava a 18 horas por dia, eventos rotineiros e, por consequência um estresse que chegou a vitimar ambos com crises de pânico e depressão. 


Logicamente, superados os problemas psicológicos, também tiveram muitas realizações. Nossa empresa se tornou uma das maiores e mais conhecidas da cidade, com uma equipe competente e satisfeita com ambiente de trabalho, clientes importantes e parceiros sólidos em diversos setores. Daí em diante, a cada dia são colocadas novas cartas na mesa, como a síndrome de Miller Fisher que me atingiu no final de 2019, acabando com minhas forças, meus movimentos e alguns sonhos. Porém isso já é assunto para uma outra história, continue seguindo o blog, saiba dessa e outras mais.